BYD lança Song Pro híbrido plug-in flex produzido no Brasil
O modelo feito em Camaçari combina eletricidade, gasolina e etanol e chega às lojas em duas versões. O lançamento reforça a presença da montadora chinesa no país, mas o avanço industrial dependerá de quanto da tecnologia e dos componentes passará efetivamente a ser produzido no Brasil.
A BYD apresentou nesta terça-feira, 4 de agosto, o novo Song Pro DM-i Flex, primeiro híbrido plug-in flex produzido pela montadora em Camaçari, na Bahia. O veículo começa a chegar às concessionárias brasileiras nesta quarta-feira, 5 de agosto.
Segundo Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD no Brasil, o sistema foi desenvolvido durante dois anos por equipes brasileiras e chinesas, com investimento de R$ 100 milhões. O conjunto permite que o carro utilize eletricidade, gasolina, etanol ou qualquer mistura entre os dois combustíveis líquidos.
O modelo será oferecido nas versões GL e GS. A cobertura do lançamento feita pelo iG informou preços de R$ 176.990 para a versão GL e R$ 199.990 para a GS. Os valores e as condições comerciais podem sofrer alterações posteriores pela montadora ou pelas concessionárias.
Em um híbrido plug-in, a bateria pode ser recarregada em uma tomada ou carregador. No Song Pro, o motor elétrico é responsável pela maior parte da condução, enquanto o motor 1.5 flex pode gerar energia e complementar o funcionamento do conjunto em trajetos mais longos, segundo a página oficial do modelo.
A BYD informa autonomia elétrica de até 57 quilômetros na versão GL e 72 quilômetros na GS pelo padrão PBEV utilizado no Brasil. Com a bateria e o tanque abastecido com gasolina, a autonomia combinada divulgada chega a 1.075 quilômetros na GL e 1.105 quilômetros na GS, segundo o ciclo NEDC. Com etanol, os números informados caem para 775 e 805 quilômetros.
Há uma divergência nas informações apresentadas no lançamento. Baldy informou à Reuters autonomias elétricas de 60 quilômetros para a GL e 120 quilômetros para a GS, enquanto a página oficial brasileira registra 57 e 72 quilômetros pelo PBEV. Nas páginas consultadas, a BYD não esclareceu se o número de 120 quilômetros corresponde a outro ciclo de medição. Por isso, o dado brasileiro indicado pela própria ficha comercial é a referência mais prudente para o consumidor.
A produção ocorre no complexo de Camaçari, inaugurado em outubro de 2025 no antigo polo industrial da Ford. A BYD afirma investir R$ 5,5 bilhões na unidade e projeta fabricar aproximadamente 180 mil veículos no local em 2026. A companhia também estabeleceu a meta de superar 50% de componentes locais nos veículos brasileiros até janeiro de 2027.
A meta é relevante porque a primeira fase da operação utilizou o sistema SKD, no qual conjuntos parcialmente montados no exterior são concluídos no Brasil. Pneus já são adquiridos localmente, e a empresa afirma que pretende fabricar baterias e incorporar novos fornecedores à operação baiana. Isso significa que o carro já sai de uma fábrica brasileira, mas o grau de nacionalização ainda está em evolução.
O lançamento acontece durante uma rápida expansão da BYD. Segundo números fornecidos pela empresa à Reuters, a montadora vendeu 23.465 veículos no Brasil em julho, alcançou 9,1% do mercado e ocupou a quarta posição entre as marcas. O total foi mais que o dobro das 9.680 unidades registradas no mesmo mês de 2025.
O movimento também reflete a política brasileira de elevar gradualmente o imposto de importação de veículos eletrificados e estimular sua fabricação local. Uma nota técnica da Empresa de Pesquisa Energética avaliou que a entrada de BYD e GWM na produção nacional mostra que as barreiras tarifárias começaram a converter vendas de veículos importados em investimentos industriais no país.
Análise
O lançamento representa mais do que a adaptação de um SUV ao etanol. A BYD está usando uma tecnologia chinesa para disputar o mercado brasileiro com uma solução construída ao redor de uma vantagem que o país já possui: uma rede ampla de abastecimento e uma indústria consolidada de biocombustíveis.
Isso torna o híbrido plug-in flex uma ponte possível entre o motor tradicional e o carro totalmente elétrico. O consumidor pode realizar parte dos trajetos usando a bateria sem depender exclusivamente da rede pública de recarga e recorrer ao etanol ou à gasolina em viagens longas.
A principal entrelinha, porém, está na palavra “nacional”. Montar o veículo em Camaçari gera atividade econômica, empregos e arrecadação, mas não significa que bateria, eletrônica, motores e sistemas de controle já sejam produzidos no país. O ganho mais profundo virá caso a fábrica atraia fornecedores, forme engenheiros e transfira parte do desenvolvimento tecnológico — e não apenas substitua a importação do carro completo pela chegada de conjuntos parcialmente montados.
A leitura editorial da VTX é que a BYD encontrou uma maneira inteligente de transformar o etanol em diferencial competitivo para sua tecnologia global. Ao mesmo tempo, o Brasil precisa evitar que sua contribuição fique limitada ao combustível, à mão de obra de montagem e aos incentivos públicos.
Também existe um limite ambiental. Um híbrido plug-in entrega seu maior benefício quando a bateria é carregada com frequência. Dados reunidos pela Comissão Europeia mostraram que as emissões reais de modelos plug-in avaliados na Europa foram, em média, 3,5 vezes superiores aos valores de laboratório, principalmente porque os veículos não eram carregados nem utilizados no modo elétrico com a frequência prevista nos testes. O resultado europeu não determina o desempenho do Song Pro no Brasil, mas mostra que a rotina do motorista importa tanto quanto a tecnologia instalada no carro.
Na prática
- Ser flex não elimina a necessidade de recarga. O carro pode circular usando etanol ou gasolina, mas a economia e a redução do uso de combustível dependem de carregar a bateria regularmente e aproveitar o modo elétrico nos trajetos cotidianos.
- Os números de autonomia precisam ser comparados pelo mesmo padrão. A BYD apresenta resultados do PBEV brasileiro e do ciclo internacional NEDC. Eles servem como referência, mas não garantem a distância alcançada por cada motorista, que varia conforme trânsito, velocidade, temperatura, carga e frequência de recarga.
- O benefício industrial dependerá da nacionalização real. A produção em Camaçari pode ampliar empregos, assistência técnica e disponibilidade de peças. Para o cenário evoluir, será necessário cumprir a meta de componentes locais, desenvolver fornecedores brasileiros e informar com transparência quanto do veículo é efetivamente produzido no país.
A BYD ganha um produto adaptado ao maior mercado automotivo da América Latina, enquanto o setor de etanol e a Bahia podem ganhar demanda, investimentos e empregos. As montadoras tradicionais, por outro lado, enfrentam uma concorrente que já combina preço agressivo, eletrificação e produção local.
O Song Pro Flex mostra que o Brasil pode participar da transição automotiva sem abandonar imediatamente sua infraestrutura de combustíveis. O limite está em saber se o país será apenas o local onde essa tecnologia será montada e abastecida — ou se conseguirá participar também de seu desenvolvimento e de sua cadeia de maior valor.
Fontes consultadas
BYD Brasil — Novo BYD Song Pro DM-i Flex
https://www.byd.com/br/car/song-pro-flex
Reuters — BYD debuts first Brazilian-made plug-in hybrid flex car as sales surge
https://www.reuters.com/world/asia-pacific/byd-debuts-first-brazilian-made-plug-in-hybrid-flex-car-sales-surge-2026-08-04/
iG Carros — Novo BYD Song Pro flex chega a partir de R$ 176.990
https://carros.ig.com.br/2026-08-04/novo-byd-song-pro-flex-chega-a-partir-de-r–176990.html
Empresa de Pesquisa Energética — Demanda de Energia dos Veículos Leves: 2026–2035
https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-331/topico-827/NT-EPE-DPG-SDB-2026-01_Demanda%20de%20energia%20VL_2026-2035.pdf
Comissão Europeia — First Commission report on real-world CO₂ emissions of cars and vans
https://climate.ec.europa.eu/news-other-reads/news/first-commission-report-real-world-co2-emissions-cars-and-vans-using-data-board-fuel-consumption-2024-03-18_en