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Guerra entre Rússia e Ucrânia também pesa no bolso do brasileiro

Os ataques no Mar Negro voltaram a ameaçar o comércio de grãos, petróleo e derivados. Mesmo distante do conflito, o Brasil depende de fertilizantes russos, de diesel importado e dos preços internacionais de alimentos e energia.

A guerra entre Rússia e Ucrânia voltou a pressionar rotas comerciais importantes no Mar Negro. Ataques contra portos, refinarias, navios e terminais aumentaram o risco para o transporte de grãos, petróleo e combustíveis.

A região concentra parte relevante das exportações agrícolas da Rússia e da Ucrânia. Quando um porto deixa de operar ou uma embarcação evita a área, seguradoras elevam os preços, transportadoras cobram mais e compradores procuram fornecedores em outros países.

Esse custo pode chegar ao Brasil mesmo quando o produto não é comprado diretamente dos dois países.

Fertilizantes ligam o campo brasileiro à Rússia

O Brasil importa mais de 80% dos fertilizantes utilizados na agricultura. Em 2025, a Rússia respondeu por 25,9% das compras brasileiras desses insumos, segundo o Banco Central.

Essa dependência não significa que o fornecimento tenha sido interrompido. O risco está na possibilidade de aumentarem os custos de transporte, seguro e pagamento, além de mudanças provocadas por sanções ou restrições comerciais.

A alta do fertilizante não aparece imediatamente no supermercado. Ela entra primeiro no custo do plantio e pode atingir, meses depois, os preços dos grãos, das rações, das carnes e de outros alimentos.

O Brasil produz petróleo, mas ainda importa diesel

O país é um grande produtor e exportador de petróleo bruto, mas não refina internamente todo o diesel necessário para caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e indústrias.

Em 2025, as importações líquidas atenderam 27,3% da demanda brasileira de diesel, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. A Rússia esteve entre os principais fornecedores.

Ataques contra refinarias e navios podem elevar o custo internacional do combustível. O preço nas bombas também depende do dólar, dos impostos, das refinarias e das margens de distribuição, portanto não sobe automaticamente após cada novo ataque.

O diesel, porém, está presente em praticamente toda a cadeia de transporte brasileira. Quando fica mais caro, o efeito pode aparecer no frete e no preço final de alimentos, encomendas e produtos industriais.

O trigo mostra como o efeito pode ser indireto

A maior parte do trigo importado pelo Brasil vem da Argentina, não da Rússia ou da Ucrânia. Ainda assim, uma redução da oferta no Mar Negro leva outros compradores a procurar trigo argentino, norte-americano ou canadense.

Essa disputa pode elevar os preços internacionais mesmo para países que não compram diretamente da região em guerra.

O repasse para pães, massas e farinhas não é garantido. Ele dependerá também da safra argentina, da produção brasileira, do câmbio, dos estoques dos moinhos e dos custos de transporte.

Análise

A guerra deixou de produzir apenas choques isolados e passou a criar um custo permanente de insegurança. Empresas mantêm estoques maiores, navios evitam determinadas rotas e seguradoras cobram mais para assumir o risco.

A principal entrelinha para o Brasil é uma contradição: o país está entre os maiores produtores agrícolas e de petróleo do mundo, mas ainda depende do exterior para obter fertilizantes e parte do diesel necessários para plantar e transportar sua produção.

Exportadores brasileiros podem ganhar quando os preços internacionais sobem. Agricultores que compram adubo, transportadoras, pequenos negócios e famílias de menor renda, porém, podem sentir os custos antes de qualquer benefício.

Para o governo, o problema também é delicado. Permitir o repasse integral pode aumentar a inflação e dificultar novas reduções dos juros. Tentar segurar preços por meio de subsídios ou cortes de impostos transfere parte da conta para o orçamento público.

A leitura editorial da VTX é que o maior risco está na soma das vulnerabilidades. Fertilizantes mais caros, diesel importado, fretes elevados e dólar pressionado podem formar uma cadeia em que o Brasil produz muito, mas gasta cada vez mais para plantar, transportar e vender.

Isso não significa que toda alta de alimentos ou combustíveis seja causada pela guerra. Clima, câmbio, impostos, estoques e decisões de produção também influenciam os preços. O conflito acrescenta mais uma pressão a um mercado que já enfrenta outras incertezas.

Na prática

  1. O efeito nos alimentos pode demorar a aparecer. Um fertilizante comprado agora será utilizado em safras futuras. O preço final também dependerá da produtividade, do dólar e do transporte.
  2. O diesel não sobe automaticamente após cada ataque. A guerra influencia referências internacionais, fretes e seguros, mas o valor no posto possui outros componentes.
  3. Reduzir a dependência exige planejamento de longo prazo. Ampliar a produção nacional de fertilizantes e derivados, diversificar fornecedores e melhorar a logística diminuiria a exposição brasileira, mas essas mudanças exigem investimento e tempo.

Exportadores de alimentos e petróleo podem se beneficiar de preços internacionais mais altos. Consumidores, transportadores e produtores dependentes de insumos importados assumem a maior parte do risco.

A distância entre o Brasil e o campo de batalha não elimina o impacto econômico. Quando plantar, abastecer e transportar ficam mais caros, a guerra reaparece no cotidiano na forma mais próxima possível: no preço dos produtos e no orçamento das famílias.

Fontes consultadas

Reuters — Surge in Black Sea attacks adds to strain on global commodity flows
https://www.reuters.com/world/surge-black-sea-attacks-adds-strain-global-commodity-flows-2026-08-05/

Reuters — Ukraine turns to alternative grain export routes
https://www.reuters.com/world/ukraine-turns-alternative-grain-export-routes-counts-losses-russia-blocks-ports-2026-08-04/

Banco Central do Brasil — Relatório de Política Monetária, junho de 2026
https://www.bcb.gov.br/content/ri/relatorioinflacao/202606/rpm202606p.pdf

ANP — Nota Técnica nº 16/2026 sobre o mercado de óleo diesel
https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/consultas-e-audiencias-publicas/consulta-audiencia-publica/2026/arquivos/cp-04-2026/nt-16-2026.pdf

Ministério da Agricultura e Pecuária — Sumário Executivo do Trigo
https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/todas-publicacoes-de-politica-agricola/sumarios-executivos-de-produtos-agricolas/trigo-pdf

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