A riqueza sai bruta do Brasil e volta mais cara
Petróleo, minério e soja sustentam as exportações brasileiras. O problema não é vender esses produtos, mas permanecer no início das cadeias enquanto outros países concentram tecnologia, indústria e os empregos com melhores remunerações.
Em 2025, as exportações brasileiras alcançaram o recorde de US$ 348,7 bilhões, crescimento de 3,5% em relação ao ano anterior, segundo o relatório oficial da ApexBrasil.
O resultado fortalece a balança comercial, gera entrada de dólares e ajuda a financiar as importações. Seria errado tratar a exportação de matérias-primas como um problema por si só.
A fragilidade aparece em outra parte: o Brasil vende grandes volumes de recursos naturais, mas ainda participa pouco de algumas etapas que transformam esses recursos em produtos mais sofisticados e caros.
Petróleo bruto, soja e minério de ferro permanecem entre os principais produtos vendidos pelo país, como mostram as estatísticas de comércio exterior do MDIC. Ao mesmo tempo, o Brasil importa máquinas, componentes eletrônicos, produtos químicos, medicamentos e diferentes tipos de equipamentos industriais.
Isso não significa que cada tonelada exportada retorne ao país transformada. O sentido é estrutural: parte relevante do processamento, da tecnologia e da margem de lucro permanece em outras economias.
Exportar muito não significa capturar todo o valor
Uma tonelada de minério tem valor. Quando ela é transformada em aço especial, componentes industriais ou equipamentos, passa a carregar engenharia, tecnologia, serviços e mão de obra mais bem remunerada.
A mesma lógica vale para o petróleo, os produtos agrícolas e outros recursos naturais. Quanto maior o número de etapas realizadas dentro do país, maior tende a ser a parcela de riqueza que permanece na economia nacional.
O caso do petróleo torna essa diferença especialmente visível. A Empresa de Pesquisa Energética projeta que o Brasil ampliará sua posição como exportador de óleo cru e poderá alcançar 2,7 milhões de barris exportados por dia em 2035.
Mesmo com a previsão de aumento de 10% na capacidade nacional de refino, o país deverá continuar importando derivados durante todo o período, principalmente diesel e nafta. Em outras palavras: produzimos e exportamos petróleo, mas ainda precisamos comprar no exterior parte dos produtos resultantes de seu processamento.
O Brasil também possui setores industriais competitivos e exporta veículos, aeronaves, máquinas, alimentos processados e outros produtos de maior complexidade. A questão não é afirmar que o país vende apenas produtos básicos, mas reconhecer o peso que eles ainda possuem e a dificuldade de ampliar nossa presença nas etapas mais valiosas das cadeias produtivas.
Essa concentração fica ainda mais evidente na relação com a China. Como mostrou outra análise do VTX sobre a dependência comercial brasileira, o país asiático compra principalmente soja, minério e petróleo do Brasil, enquanto nos vende uma pauta industrial muito mais diversificada.
Análise
As commodities deram ao Brasil uma importante vantagem econômica. Temos território, recursos naturais, produção em escala e empresas altamente competitivas. Abandonar essa força seria irracional.
O erro está em confundir abundância de recursos com uma estratégia completa de desenvolvimento.
Quando um país permanece concentrado nas primeiras etapas da produção, fica mais exposto às oscilações dos preços internacionais e às decisões tomadas por grandes compradores. Também captura uma parcela menor dos ganhos gerados posteriormente por pesquisa, projetos industriais, softwares, patentes, marcas e serviços especializados.
É nessas etapas que costumam se concentrar as maiores margens de lucro e muitos dos empregos com melhores remunerações.
O desafio brasileiro, portanto, não é substituir o agronegócio, a mineração ou o petróleo. É usar a força desses setores para desenvolver atividades que hoje acontecem fora do país.
Isso exige evitar dois extremos. O primeiro é aceitar indefinidamente o papel de fornecedor de recursos básicos. O segundo é criar subsídios permanentes para indústrias que sobrevivem apenas com proteção estatal e nunca se tornam competitivas.
Na prática
- O saldo comercial não conta toda a história. Vender mais do que comprar é positivo, mas o tipo de produto negociado revela quanto valor, tecnologia e renda o país consegue manter dentro de sua economia.
- O impacto chega ao emprego e à renda. Refinarias, laboratórios, engenharia, softwares industriais, equipamentos e produtos processados podem ampliar a oferta de empregos com melhores remunerações sem abandonar os setores que já sustentam as exportações.
- O caminho viável é escolher poucas cadeias competitivas. Em vez de tentar industrializar tudo, o Brasil pode concentrar esforços em áreas nas quais já possui recursos, escala ou conhecimento: aço de baixo carbono, alimentos processados, bioinsumos, combustíveis avançados e produtos químicos. O financiamento já existe por meio do Plano Mais Produção, que reúne BNDES, Finep, Embrapii e outros bancos públicos. O apoio, porém, precisa estar ligado a metas verificáveis de produtividade, pesquisa, exportação e prazo.
O Brasil não precisa abandonar sua vocação para produzir alimentos, petróleo e minério. Precisa transformar essa vantagem no ponto de partida de novas cadeias, e não no limite de sua economia.
A riqueza natural é uma vantagem. Permanecer apenas no primeiro estágio de sua transformação é uma escolha.