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Brasil pode ajudar a financiar o Irã pelo Banco dos BRICS

O presidente do Banco Central do Irã afirmou que o país deverá ingressar em breve no Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como Banco dos BRICS.

A entrada do regime abriria uma nova rota de crédito sustentada também pelo contribuinte brasileiro. E, onde militares controlam grandes empresas e contratos públicos, até empréstimos para infraestrutura podem alimentar repressão, armas e drones.

A possível entrada do Irã no Banco dos BRICS ganhou força após o presidente do Banco Central iraniano afirmar que o país deverá ingressar em breve no Novo Banco de Desenvolvimento. A informação foi divulgada pela Reuters, embora a adesão ainda não tenha sido oficialmente confirmada pela instituição.

A decisão depende do Conselho de Governadores do banco. O Brasil é fundador, acionista e participa dessa votação. Portanto, o governo Lula terá de escolher se ajuda a abrir essa porta para Teerã.

O dinheiro também é do brasileiro

O acordo de criação do banco dividiu inicialmente US$ 50 bilhões entre os cinco fundadores. A parcela atribuída ao Brasil foi de US$ 10 bilhões — US$ 2 bilhões em capital integralizado e US$ 8 bilhões sujeitos a chamada.

Esse capital não nasceu no banco: veio dos países que o sustentam. No caso brasileiro, é dinheiro público — portanto, dinheiro do contribuinte.

Se o Irã entrar e receber empréstimos, parte da estrutura financeira que permitirá esses financiamentos terá sido construída com recursos brasileiros.

O que uma “ponte” pode esconder

Oficialmente, o Banco dos BRICS financia infraestrutura e desenvolvimento. O problema é imaginar que, no Irã, o dinheiro destinado a uma estrada, usina ou ponte ficará isolado do restante do regime.

A Guarda Revolucionária iraniana controla a Khatam al-Anbiya, um conglomerado que atua justamente na construção de estradas, túneis, oleodutos e grandes projetos de infraestrutura. Segundo o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, contratos desses setores já geraram centenas de milhões de dólares para empresas ligadas à força militar.

Assim, existem várias portas escondidas: superfaturamento, contratação de empresas controladas por militares, compra de equipamentos de uso duplo e circulação do dinheiro dentro de estatais vinculadas ao regime.

A ponte pode até ser construída. Mas a empresa que recebe pela obra pode financiar a estrutura que produz drones, armas e mecanismos de repressão.

Além disso, cada dólar estrangeiro usado em infraestrutura permite que Teerã preserve recursos próprios para outras prioridades. O nome registrado no contrato pode ser “desenvolvimento”; o efeito final pode ser fortalecer todo o aparato estatal iraniano.

O regime que será beneficiado

Em janeiro de 2026, o Irã cortou a internet enquanto reprimia protestos contra o governo. Segundo a Human Rights Activists News Agency, citada pela Associated Press, ao menos 2.571 pessoas morreram — 2.403 delas identificadas como manifestantes — e mais de 18 mil foram detidas.

Enquanto isso, a União Europeia congelou ativos e proibiu o fornecimento de recursos à Guarda Revolucionária, classificada pelo bloco como organização terrorista. O objetivo é retirar capacidade financeira do grupo responsável pela repressão interna e por programas militares.

O possível movimento brasileiro segue na direção contrária: ajudar a oferecer ao Irã uma nova rota de financiamento internacional.

Análise

A entrada do Irã não seria apenas uma expansão administrativa do Banco dos BRICS. Seria uma escolha política que aproximaria ainda mais o Brasil do eixo formado por China, Rússia e regimes que procuram escapar das pressões econômicas das democracias ocidentais.

O risco não é somente o desvio ilegal de uma parcela do empréstimo. É o financiamento legal de uma economia na qual empresas militares, estatais e autoridades do regime estão profundamente misturadas.

Se o governo Lula apoiar a adesão, o contribuinte brasileiro poderá ajudar a devolver oxigênio financeiro a um regime que outros países tentam isolar por repressão, produção de drones e violações de direitos humanos.

Na prática

O Brasil precisa revelar seu voto: o governo deve informar se apoiará a entrada iraniana e explicar por que considera essa decisão compatível com os interesses brasileiros.

Os contratos precisam mostrar os beneficiários finais: empresas ligadas à Guarda Revolucionária ou a autoridades sancionadas não podem receber recursos direta ou indiretamente.

O contribuinte precisa acompanhar os empréstimos: valores, empresas contratadas, equipamentos adquiridos e execução das obras devem ser públicos e fiscalizados de maneira independente.

Não é necessário encontrar um comprovante escrito “compra de drones” para compreender o risco. Em uma estrutura econômica controlada pelo mesmo regime, o dinheiro pode mudar de empresa, rubrica e finalidade sem deixar de fortalecer quem está no poder.

A ponte pode ser construída e o aparelho militar também sair fortalecido. As duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo — e é justamente essa parte que o comunicado oficial não contará.

Fontes consultadas

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