Futuro & Oportunidades

Produtos estão ganhando um “RG digital” que pode mudar compras, reparos e revenda

O passaporte digital de produtos reúne origem, materiais, durabilidade e informações de manutenção. A tendência começa na Europa, mas pode influenciar fabricantes e consumidores em outros mercados.

Em poucos anos, escanear um código em uma roupa, bateria ou eletrodoméstico poderá revelar muito mais do que preço e fabricante. A proposta do chamado Passaporte Digital de Produto é criar uma identidade eletrônica capaz de acompanhar o item durante sua vida útil.

Esse registro poderá reunir informações sobre materiais utilizados, origem dos componentes, impacto ambiental, instruções de manutenção, disponibilidade de peças e possibilidades de reciclagem.

A iniciativa ganhou força com o Regulamento Europeu de Ecodesign para Produtos Sustentáveis, aprovado em 2024. A legislação criou a estrutura para que grupos de produtos recebam gradualmente passaportes digitais, com requisitos definidos conforme cada categoria.

Como o passaporte deverá funcionar

O acesso poderá ocorrer por uma etiqueta, código QR ou outro identificador presente no produto, na embalagem ou na documentação.

As informações disponíveis dependerão do tipo de usuário. Consumidores poderão consultar determinados dados, enquanto fabricantes, oficinas, recicladores e autoridades terão acesso a informações específicas relacionadas às suas atividades.

A regulamentação europeia prevê acesso fácil e gratuito conforme esses diferentes níveis de permissão. Também determina que dados pessoais do consumidor não sejam incluídos sem consentimento explícito.

Na prática, o passaporte poderá ajudar a responder perguntas como:

  • de onde vieram os materiais;
  • quanto tempo o produto foi projetado para durar;
  • quais peças podem ser substituídas;
  • como realizar manutenção;
  • onde encaminhar o item para reciclagem;
  • se determinadas exigências ambientais foram cumpridas.

Por que essa mudança está acontecendo

Grande parte das informações de um produto fica dispersa entre fabricantes, fornecedores, lojas e documentos técnicos. Quando o item chega ao consumidor, quase sempre restam apenas a embalagem, o manual e a nota fiscal.

Essa falta de continuidade dificulta reparos, revenda, reaproveitamento de peças e reciclagem.

O passaporte pretende manter essas informações ligadas ao produto durante toda a sua existência. A Comissão Europeia o define como uma identidade digital para produtos, componentes e materiais, criada para ampliar a transparência e apoiar a economia circular.

A tendência se conecta também ao fortalecimento do direito ao reparo. Regras europeias aprovadas em 2024 buscam facilitar o acesso a oficinas, peças e informações necessárias para consertar determinados produtos, reduzindo a substituição prematura.

O que poderá mudar para o consumidor

No momento da compra, será possível comparar produtos por critérios que hoje são difíceis de verificar, como durabilidade, reparabilidade e composição.

Na revenda, o passaporte poderá funcionar como um histórico básico do item. Um equipamento com origem verificável, manutenção registrada e peças identificadas tende a ser avaliado de maneira diferente de outro sem informações confiáveis.

Oficinas também poderão localizar especificações e componentes com maior facilidade. Já recicladores poderão identificar materiais que exigem tratamento específico.

A implantação será gradual e não significa que todos os produtos receberão imediatamente o mesmo conjunto de informações.

Análise

A principal promessa do passaporte digital é reduzir a vantagem de empresas que vendem produtos aparentemente sustentáveis sem demonstrar como foram fabricados. Porém, disponibilizar dados não garante que eles sejam completos, comparáveis ou compreendidos pelo consumidor.

Existe o risco de o passaporte se transformar apenas em mais uma etiqueta carregada de termos técnicos. Seu valor dependerá da padronização das informações e da possibilidade de comparar produtos concorrentes de forma simples.

Para pequenas empresas, a mudança também poderá representar custos. Organizar fornecedores, materiais, certificações e dados de produção exige sistemas e processos que muitas ainda não possuem. Grandes fabricantes poderão se adaptar mais rapidamente, ampliando temporariamente a distância tecnológica entre empresas.

Por outro lado, essa exigência pode abrir mercado para serviços de rastreabilidade, integração de dados, certificação, manutenção e gestão da cadeia de fornecedores.

Para empresas brasileiras que exportam ou fornecem componentes ao mercado europeu, é plausível que a pressão por informações detalhadas aumente mesmo antes de existir uma regra semelhante no Brasil. Essa é uma consequência indireta: quando um grande mercado exige rastreabilidade, parte da cadeia global precisa se adequar.

Na prática

O consumidor ainda não precisa procurar um passaporte digital em todos os produtos. A tendência está em fase de implantação e avançará por categorias.

Mesmo assim, já é possível adotar critérios semelhantes antes de comprar:

  • verificar a disponibilidade de peças;
  • pesquisar o prazo de atualizações;
  • consultar a rede de assistência;
  • comparar garantia e vida útil estimada;
  • observar se a bateria ou componentes podem ser substituídos;
  • guardar nota fiscal, número de série e registros de manutenção.

Para pequenos fabricantes e comerciantes, o primeiro passo é organizar informações que normalmente ficam espalhadas: origem dos materiais, fornecedores, manuais, componentes e procedimentos de descarte.

O passaporte digital não será apenas um novo código na embalagem. Ele representa uma mudança gradual na forma como produtos poderão ser avaliados: não somente pelo que fazem no momento da compra, mas também por quanto duram, como podem ser reparados e o que acontece quando deixam de ser utilizados.

Fontes consultadas

  • Comissão Europeia — Regulamento de Ecodesign e Passaporte Digital de Produto.
  • EUR-Lex — Regulamento Europeu 2024/1781.
  • Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia — regras sobre direito ao reparo.
  • GS1 — estrutura e identificação de passaportes digitais.
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